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05 Outubro 2020
Fórum da SMCC expõe novas descobertas sobre fatores genéticos e imunidade na Covid-19


O XV Fórum da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (SMCC) “Situação Atual Covid-19 em Campinas” foi realizado na quinta-feira (01/10) com o tema “Imunologia II: Mutações e Novo Mecanismo Autoimune na Covid-19 Grave”. O evento foi de altíssimo nível técnico e enriquecedor para todos os Profissionais da Saúde. Assim como na primeira abordagem ao tema (XI Fórum: Imunidade e Imunização) os ouvintes receberam uma verdadeira aula sobre os aspectos imunológicos e novos rumos para o enfrentamento a doença.

O ponto de partida deste Fórum foram as recentes descobertas do Consórcio Internacional ‘COVID Human Genetic Effort’. Os novos trabalhos decifraram mutações associadas a Covid-19 grave e um mecanismo de autoimunidade anulando a via dos interferons, nunca descrito antes. Os estudam apontam para novas possibilidades terapêuticas, tanto para Covid-19, quanto para outras doenças. 


Veja o 15º Fórum da SMCC “Imunidade II: Mutações e Novo Mecanismo Autoimune na Covid-19 Grave”:

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Apresentações:

O primeiro apresentador foi o Prof. Dr. Antônio Condino Neto, um dos dois únicos brasileiros membros do Consórcio Internacional ‘COVID Human Genetic Effort’; além de professor titular da USP-SP. Na SMCC, Dr. Condino acaba de assumir o cargo de Diretor Científico. 

Dr. Condino Neto fez uma apresentação explicando os achados dos dois novos estudos do consórcio internacional. 

O primeiro trabalho, segundo ele, mostra que a gravidade da doença, na verdade, pode ter um motivo na genética da própria pessoa. “Ela nasce com alterações genéticas que interferem na resposta ao Interferon tipo 1, e esse tipo, ele tem uma importância muito grande na defesa contra infecções virais. Então, essas pessoas estavam assintomáticas até que um dia elas “trombaram” com o SARS-CoV-2 e se deram mal, porque elas não tinham um mecanismo de resistência genética natural que só foi revelado quando encontraram com o coronavírus”. 

O médico comentou que provavelmente uma parte destes pacientes também já pode ter tido uma experiência ruim, por exemplo, com o vírus H1N1. 

Já o segundo trabalho demonstra mecanismos de autoimunidade. “É quando o corpo produz autoanticorpos que interferem na resposta deste Interferon tipo 1, portanto, existe um “auto boicote” do sistema imune com relação à resistência viral, e por isso, estas (pessoas) também se dão mal”, explanou Dr. Condino. 

A segunda apresentação do Fórum ficou a cargo do Prof. Dr. Antônio José de Pinho Jr., membro do Departamento de Alergia e Imunologia da SMCC e professor da Faculdade São Leopoldo Mandic. Dr. Pinho complementou outros pontos de evolução da ciência na questão imunológica da Covid-19 e fez um apanhado da situação atual do desenvolvimento das vacinas.

A vacina Coronavac (Sinovac Biotech® / Instituto Butantan) utiliza vírus inativo e está na fase III de testes. Em nossa região, sob o comando da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), esta primeira etapa envolve 600 voluntários de 18 a 59 anos, em um estudo randomizado, duplo-cego, placebo-controlado.

Relatórios sobre a Coronavac em outros países não apresentaram reações adversas graves e observou-se que a vacina induziu anticorpos neutralizantes em 90% dos testados, após 14 dias. “O que se viu foi que houve presença de 90% de anticorpo neutralizante com a segunda dose, mas não houve avaliação de imunidade celular e, realmente, a resposta foi inferior para as (pessoas) de faixa de idade maior”, comentou o médico. 

Em outra frente de estudos, a vacina da Universidade de Oxford / Astra Zeneca® / Fiocruz envolve 1.077 voluntários de 18 a 55 anos. Também na fase III, é um estudo randomizado, mas cego para participantes e usa como controle a vacina contra meningococo ACWY. Porém, a vacina de Oxford tem estratégia diferente da Coronavac, atuando através de um “cavalo-de-Tróia” (um adenovírus de Chimpanzé) com RNA para a proteína S (Spike) do SARS-Cov-2. Em relatórios preliminares, esta vacina contemplou além dos anticorpos neutralizantes também a resposta T.

“Demonstraram (...) que você tem nos indivíduos imunizados pela vacina de Oxford uma resposta celular importante, com produção de interferons o que já é diferente”, resumiu. 

Esta vacina foi interrompida após uma reação adversa de uma das pacientes. Sobre o caso foi descrito que esta teve mielite transversa, porém, não se sabem os detalhes sobre as características clínicas da paciente. “O estudo teve uma pausa, mas já foi retomado. Está recrutando um número novo de pessoas para depois acompanhar. Mas (a pausa) foi muito rápida, o que faz muitos especularam que pode ter sido uma relação temporal e que a paciente em questão não faria parte do grupo ativo (o que recebeu a vacina). Tudo isso e só especulação. Não temos os dados publicados para uma discussão”, argumentou.

Nota da Redação: para melhor entendimento, recomendamos que os leitores assistam as apresentações na íntegra, que estão disponíveis nos links logo acima nesta matéria.



Discussão:

O moderador do Fórum, Dr. Marcelo Amade Camargo, Diretor Comercial e Marketing da SMCC, questionou os convidados sobre a possibilidade de desenvolvimento de exames genéticos para detecção dos pacientes mais suscetíveis e se isso seria possível num curto prazo. 

Dr. Condino confirmou que é viável e certamente haverá uma evolução neste sentido. “Não existe hoje um kit comercial, mas sim um trabalho artesanal elaborado em laboratório, mas, sem dúvidas, será uma evolução natural e necessária diante do contexto. Existem testes de anticorpos que poderiam ser entregues em 24 horas e ajudar na tomada de decisão”.

Outra dúvida levantada foi quanto a vacina ideal para ser usada e em que momento ou fase dos testes poderemos ter respostas mais assertivas. Dr. Pinho respondeu que, em sua opinião, a decisão, primeiramente, seria optar pela mais segura, ou seja, que não traga consequências adversas para pacientes ou que confira alguma imunidade, mas, infelizmente, talvez somente em fases avançadas dos testes, quando a vacina já estiver sendo utilizada largamente, poderá se chegar a esta conclusão.

Na sequência do evento, o infectologista Dr. Rodrigo Angerami, coordenador do Departamento de Infectologia da SMCC, pontuou como as ações, estudos e aplicações destas descobertas mudaram a prática da medicina quando se faz um paralelo da Imunologia auxiliando a Infectologia no manejo das doenças infecciosas. 

Para Dr. Condino, esta será a década da imunogenética e ambas especialidades devem trabalhar juntas para conter transmissões, ofertar resultados e coibir a evolução de cadeias de contágio. 

Os médicos também confirmaram que a Covid-19, com certeza, será incorporada no “portfólio” das doenças virais sazonais. A descoberta do vírus veio a partir de uma pandemia e, diante das descobertas, o SARS-Cov-2 deve continuar a circular no ano que vem, assim como ocorreu ao longo dos últimos anos com outros vírus. 

Dr. Condino insinuou que, do seu ponto de vista como imunologista, pela alta contagiosidade e “quantidade absurda” de receptores ACE2 (Angiotensin-Converting Enzyme 2) nos testículos, poderemos ter até casos de esterilidade. O mesmo com relação a insuficiência renal e complicações neurológicas. Porém não se tem certeza desta evolução no momento. 

O médico se mostrou preocupado também com gestantes que tiveram Covid-19. Segundo ele, não se sabe se o bebê poderá desenvolver ou não consequências de um possível “depósito” do vírus durante a gestação. 

Dr. Condino acha que o SARS-CoV-2 pode se integrar ao genoma de pacientes suscetíveis e o organismo de cada um terá pela frente, o que o médico disse, ser uma “negociação para um convívio pacífico com o vírus”. Para ele, será o mesmo tipo de relação que hoje se tem com o HIV (Human Immunodeficiency Vírus), de conscientização e mudança de comportamento para quebrar cadeia de transmissão.

Como reflexões finais, os participantes evoluíram comentando a importância de reforçar entre os médicos o estudo da imunologia e genética. 

“A gente continua estudante destas alterações que a gente viu da resposta imune do SARS-CoV-2. Vimos uma quantidade de artigos e conhecimento produzidos em tão pouco tempo. Sobre o tratamento, neste momento, eu acho que não resta nenhuma dúvida que você tem que fazer o tratamento seguindo e respeitando as fases. E aí, cada um faz o que acha mais adequado para o seu paciente, respeitando a autonomia do médico”, comentou Dr. Pinho. 

Dr. Rodrigo Angerami completou exemplificando a falta de conhecimento ainda sobre a maior incidência entre crianças o que torna o momento mais desafiador devido ao retorno às escolas. 

Dr. Condino encerrou reforçando que ao assumir o Departamento Científico da SMCC nesta nova gestão está diante de uma grande responsabilidade, a qual ele está pronto para auxiliar a entidade a promover uma programação científica que responda ao momento vivido. 

“Em tempo de crise é que temos que crescer e a situação de pandemia é uma situação ímpar. A Sociedade foi fundada há muitos anos, em uma situação de pandemia e estamos nós aqui novamente. Temos a responsabilidade de renovar este papel de ser a ‘Casa do Médico’ e colocar todo mundo para conversar, para encontrar soluções para nossos pacientes. É uma responsabilidade grande de definir os principais temas e desafios para frente na Medicina. Temos a asma, diabetes, hipertensão e agora as doenças autoimunes, as infecciosas, emergentes, as antigas e prevalentes”, destacou o novo Diretor Científico da SMCC. 

A presidente da SMCC, Dra. Fátima Bastos, disse estar feliz por ter percebido que o evento trouxe muitas novidades para o debate, aumentando o legado da entidade junto ao conhecimento científico médico. “Neste momento de pandemia nós aprendemos e re-aprendemos muita coisa e o conhecimento é sempre necessário. A Casa do Médico renova este posicionamento neste desafio grande e gratificante poder lutar pelos médicos e pela saúde”, disse a médica. 



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