Seção História da Medicina da SMCC tratou da abreugrafia e os homônimos Manoel de Abreu

O encontro no último dia 24/04 na SMCC trouxe o palestrante Prof.Dr. Rubens Bedrikow. O médico é Docente do Departamento de Saúde Coletiva da FCM/Unicamp. Membro do Grupo de Estudos de História das Ciências da Saúde da FCM/Unicamp. A Seção História da Medicina da SMCC foi inaugurada em 2018 para tratar temas ou recortes na história da profissão pouco discutidos ou omitidos na formação.

Abaixo o Prof. Dr. Rubens traz um texto elaborado após a apresentação da seção com suas considerações. Acompanhe:

“No mesmo ano (1936) em que o famoso radiologista Manoel de Abreu criou a abreugrafia – método radiológico para diagnóstico em massa de tuberculose, outro radiologista, homônimo do primeiro, publicou o livro ‘A medicina no interior’.
O primeiro, formado na faculdade de medicina do Rio de Janeiro em 1913, aperfeiçoou-se em Paris, onde permaneceu entre 1915 e 1922, e trabalhou na cidade do Rio de Janeiro como professor de medicina e à frente de serviços de diagnóstico radiológico de tuberculose. O segundo, graduou-se pela Faculdade Federal de Medicina de Minas Gerais, em 1931, iniciou sua carreira como sanitarista cuidando de índios no Espírito Santo, e, em seguida, exerceu a clínica e a cirurgia em Santo Antonio de Pádua (RJ), antes de se mudar à São Paulo.

Os nomes parecidos dos dois radiologistas foram responsáveis por confusão que pôde ser acompanhada pela imprensa. Em 4 de novembro de 1936, na Folha de Minas, o jornalista Jair Silva escreveu que:
‘o sr. Manoel de Abreu não tem nada de médico da roça, a não ser o pseudônimo de ‘Dr. Campanario’, que não devia aparecer em trabalho de tanta utilidade. O seu pseudônimo escandaliza como rabo de papel em smoking. Não deve mais usá-lo.[…] Jogando fora o pseudônimo, que absolutamente não lhe convém, o sr. Manoel de Abreu poderá ser professor de medicina e conferencista nas capitais’.

Manoel Dias de Abreu faz, então, uma declaração-consulta à Sociedade de Medicina e Cirurgia que cria uma comissão “incumbida de examinar o caso suscitado com o aparecimento do livro ‘A Medicina no Interior’ do Dr. Campanario (Manoel de Abreu), cujo autor é homônimo do conhecido radiologista professor Manoel de Abreu.

A comissão emitiu um parecer no qual: ‘lamenta o incidente e propõe que a Sociedade formule um apelo aos colegas que têm homônimos ilustres de nome conhecido e conceituado, para que evitem, o que será fácil, os equívocos e as confusões das coincidências desta categoria. Concluindo, diz que no caso em apreço, felizmente, o incidente é inexistente em virtude da atitude do dr. Campanario (Manoel de Abreu) que escreveu a respeito uma carta esclarecedora apresentando explicações ao professor Manoel de Abreu’.

Na carta esclarecedora, explica que ‘o meu nome é Manoel de Abreu Campanario. No entanto, sou conhecido por todos, inclusive pelos colegas, por Dr. Campanario, e, por isto, desde a época da minha formatura (1931) até a presente data o cabeçalho das minhas receitas médicas é este: Dr. Campanario (Manoel de Abreu)’.

Mais à frente, esclarece que ‘Pela própria humildade do título do meu livro ‘A Medicina no Interior’ qualquer médico deduz logo que o dr. Campanario trabalha na roça e, ao certo, nunca fará confusão de tal nome com o do radiologista prof. Manoel de Abreu. Isto é lógico. A minha culpa, presado prof., se é que existe, foi ter o nome parecido com o seu”.